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Civil society and the conflict diamonds campaign

junho 18, 2009

Douglas Armendone.
Felipe Mendonça.
Mário Afonso.

 
O principal objetivo deste trabalho é oferecer uma análise da participação da sociedade civil global em relação aos diamantes provenientes de áreas de conflito. Com tal propósito em mente, tomamos como ponto de partida o texto de Ian Smillie denominado ‘Climb every mountain: Civil society and the conflict diamonds campaign’; além disso, outros teóricos e suas respectivas contribuições são aplicadas no desenvolvimento da questão e seus resultados.

No cinema a questão dos diamantes de conflito foi abordada recentemente em dois grandes momentos. Em 2005, o filme ‘O Senhor das Armas’ (Lord of War) suscitou questões relacionadas a países fracassados e ressaltou os problemas domésticos enfrentados, e mostrou ainda o tráfico de armas existente e a maneira como algumas classes e empresas lucram em detrimento de Estados, por muitas vezes, os africanos.

Já em ‘Diamante de Sangue’ (Blood Diamond), o tema dos diamantes provenientes de zonas de conflito é ainda mais aprofundado. Vemos como alguns grupos políticos ou mesmo tribos são financiados por grandes companhias de diamantes (sediadas na Antuérpia, principalmente) e outras pedras preciosas. O objetivo destes empreendimentos privados é manter o controle das zonas de mineração, haja vista a condição de literal colapso do Estado e consequente desordem.

Para chegar a analisar o papel da sociedade civil global em relação aos diamantes de conflito, é necessário destacar alguns pontos trazidos por Smillie em seu trabalho, sejam eles:

a)      a importância das ONGs na determinação da agenda internacional;

b)      a natureza dos conflitos;

c)      a relação entre diamantes e conflitos;

d)     o Processo Kimberley;

e)      as táticas das ONGS e seus aliados;

f)       o Acordo.

Sem procurar detalhar cada um dos 6 (seis) pontos acima listados, é importante estabelecer a compreensão adequada deles, pois esta tarefa inicial permite esboçar o histórico da questão dos diamantes do conflito e avançar para as propostas sugeridas pela sociedade civil global e acordados com os Estados nacionais.

Em primeiro lugar, as Organizações Não-Governamentais (ONGs) merecem o crédito pela visão que tiveram no passado de que os problemas da sociedade estão inter-relacionados. Não é possível, por exemplo, solucionar problemas de direitos humanos sem elevar os olhos às questões ambientais. O passo seguinte a este insight foi a identificação de que os recursos naturais[1] desempenham papel relevante nos conflitos, algo que pouco fora explorado até então[2]

Assim como no caso apresentado por Anna Tsing em seu texto “Frictions”, os diamantes de conflito não eram gerados devido a uma demanda interna, e sim devido a demandas capitalistas globais. A cultura dos diamantes de conflitos é “formada e transformada… de redes de poder, troca e significado do regional-para-global” [3]

Em 1998, a Global Witness alertou sobre o fato de a guerra na Angola ser fomentada pelos diamantes em proveito da União para la Independencia Total de Angola (UNITA).  O grupo, segundo a ONG britânica, controlava a cifra de 60 a 70% da produção de diamantes, o que lhes rendia o montante de 3.7 bilhões de dólares para serem investidos em armas e no conflito como um todo.

Por sua vez, em janeiro de 2000, a ONG canadense Partnership Africa Canada denunciou que, em Serra Leoa, a Revolutionary United Front (RUF) financiou atos de violência e desrespeito aos direitos humanos por intermédio dos recursos naturais do país, tais como a madeira de lei e mesmo diamantes e outras pedras preciosas.

Como podemos notar, os diamantes (principalmente, mas há outros recursos naturais) são a fonte de financiamento dos conflitos. O alerta das ONGs é crucial no sentido de chamar a atenção para o fato e, por conseguinte, inseri-lo na agenda internacional.

A interação entre as ONGs e a questão dos diamantes é um caso de “Fricção” entre o global e o local, gerado no momento de encontro entre essas duas esferas. Este encontro, segundo Tsing geraria múltiplos resultados, impossíveis de se prever todos, e uma dualidade, que ao mesmo tempo em que está denunciando uma mazela do capitalismo, está fortalecendo este também, ao mesmo tempo em que está dando esperanças para a luta contra os diamantes de conflito, está fortalecendo o capitalismo como um todo.

A nova natureza destes conflitos não deixa dúvidas de que sua solução está conectada com o desenvolvimento de soluções inovadoras. O que pretendemos evidenciar neste momento é que os conflitos sofreram mudanças em suas características, os atores não são ‘Estados’, senão ‘grupos internos’. Uma nova espécie de anarquia, ou seja, a ausência de hierarquia que caracteriza o sistema internacional pode também adjetivar a própria estrutura doméstica de um Estado[4].

No mesmo ritmo, Samuel Huntington escreveu que os Estados-Nação permanecerão os atores mais poderosos no cenário internacional, entretanto os conflitos emergirão entre nações e grupos de diferentes civilizações, i. e., a cultura como elemento que deflagra os conflitos[5]. Atualmente, é comum encontrar distúrbios domésticos provocados pela clivagem de crenças antigas (tradição) e tempos modernos (modernidade).

Um dos agravantes na questão dos diamantes e que perpetua sua relação com guerras é que a exportação de diamantes, muitas vezes, não é supervisionada pelos Governos nacionais.

Vejamos como exemplo a Libéria. O país quase não produz diamantes, todavia sua pauta de exportação ilustra a fraude de proporção massiva na comercialização das pedras. Entre 1994 e 1999, a Bélgica importou do Governo liberiano mais de 2 bilhões de diamantes. Vale apontar o papel desempenhado pela De Beers, conglomerado que controla mais de 80% do comércio mundial de diamantes brutos.

A questão dos diamantes se encaixa no debate apresentado por Tsing quando esta trata sobre Universalistas. Por envolver diversos Estados, desde países produtores de diamantes de conflito, passando por exportadores, empresas compradoras e consumidor final, esses diamantes acabam por passar por pelo menos três Estados diferentes.

Uma medida para supervisionar a indústria de diamantes, necessitaria de uma coordenação que não poderia ser atingida no âmbito nacional ou bilateral, seria necessária uma ação universal, incluindo Estados explorados de diamantes, não só os de conflito, mas também os com a extração legal, empresas do ramo de diamantes, Estados importadores e dos consumidores, através de uma conscientização deste. Ações nesse nível já foram tomadas, um exemplo dado é a questão da indústria de peles que sofreu um boicote e acabou por se adaptar para reduzir o impacto dessa indústria, como Smillie apresenta em seu texto.

A indústria de diamantes trabalha repetidas vezes no denominado ‘open market’. Isso significa que as pedras preciosas são compradas e revendidas sem que qualquer indagação sobre a origem do produto seja feita. Tal prática alimenta ainda mais medidas inapropriadas no comércio de diamantes. Alguns escritórios da De Beers localizados na República Democrática do Congo e em outras regiões africanas funcionaram sob o sistema ‘open market’ na década de 1990.

É válido sublinhar o que notou a ONG americana International Rescue Committee: na segunda metade dos anos 1990, morreram na R. D. do Congo mais de 2.5 milhões de pessoas. Em 2003, as estatísticas foram atualizadas e registraram que foram 3.3 milhões os mortos – a maior calamidade humana desde a Segunda Guerra Mundial. Ora, as mortes contabilizadas neste período nesta região são resultado, em todo ou em parte, da disputa pelo controle dos diamantes. Estes diamantes vieram a ser conhecidos como diamantes de conflito ou diamantes de sangue[6].

Não somente na República Democrática do Congo, mas a guerra dos diamantes ocorre em inúmeros estados considerados fracassados[7]. Esses estados terminaram como fracassados em consequência de problemas internos, como altos patamares de corrupção e conflitos étnicos[8].

Os Estados Fracassados são um grande problema em relação à segurança internacional. Há vários riscos no abandono a territórios e população à margem.

Uma boa lista de características dos estados fracassados foi oferecida por Robert I. Rotberg:

“Estados fracassados são tensos, conflituosos e perigosos. Geralmente apresentam as seguintes características: aumento da criminalidade e da violência política; perda do controle de fronteiras; surgimento de hostilidades étnicas, religiosas, lingüísticas e culturais; guerra civil; uso do terror contra os próprios cidadãos; instituições fracas; infraestrutura deteriorada ou insuficiente; incapacidade de cobrar impostos sem coerção abusiva; altas taxas de corrupção; sistema de saúde em colapso; taxas crescentes de mortalidade infantil e queda da expectativa média de vida; fim das oportunidades educacionais regulares; taxas decrescentes de PIB per capita; inflação galopante; preferência disseminada por moedas estrangeira; escassez de alimentos, levando à fome[9].”

Em maio de 2000, reunidos na cidade de Kimberley (África do Sul), estavam a indústria de diamantes (como a De Beers), algumas Organizações Não-Governamentais (ONGs) e Primeiros-ministros. Esta reunião não foi conclusiva, contudo serviu como base para futuros encontros.

Durante a reunião em Kimberley, diversas ONGs de grande relevância foram chamadas, como por exemplo, a Anistia Internacional, a Oxfam Internacional entre outras. Mesmo com a presença de grandes ONGs humanitárias, a sociedade civil foi marcada pela grande informalidade, na qual nem as grandes ONGs nem as que iluminaram a questão tomavam a liderança deste grupo.

Robert Cox em seu texto “Civil society at the turn of the millennium: prospects for an alternative world order” fala sobre os novos movimentos sociais, demonstrado a maior horizontalidade e maior flexibilização em relação aos antigos movimentos sociais[10], sem o surgimento de um líder para mobilizar a todos, uma luta de diversas frentes. A reunião em Kiberley, e o processo como um todo, foi um exemplo dessa maior flexibilização dos novos movimentos sociais.

Para evitar que diamantes de áreas de conflito entrem na cadeia legítima de comércio de diamantes, as pedras são monitoradas em pontos-chave, desde a mineração até a venda no varejo. Estes processos de monitoramento são chamados ‘Processo de Kimberley’ e Sistema de Garantias.

O processo de Kimberley é um sistema sob os auspícios das Nações Unidas (ONU) e garante que hoje, mais de 99% de todos os diamantes sejam certificados como provenientes de fontes em que não há conflitos.

É importante estabelecer que os avanços no processo Kimberley foram obtidos tão somente pelos esforços da sociedade civil global em conjunto com aliados como a indústria de diamantes, receosa de que ao negligenciar a questão dos diamantes de sangue sua (in)atitude pudesse gerar boicotes.  Em relação a essa possibilidade, o próprio Nelson Mandela alertou sobre a irresponsabilidade de promovê-la, haja vista a importância dos diamantes nas economias da África do Sul, Namíbia, Índia, Botsuana, Rússia, Austrália e territórios do Canadá.

Outro aliado importante é a própria ONU. O primeiro Relatório da ONU sobre a Angola, no ano de 2000, mudou a natureza do debate, que passou da esfera exclusiva das Organizações Não-Governamentais – o próprio Conselho de Segurança confirmou os estudos do Terceiro Setor e a conexão entre guerra, armas e diamantes. Assim, em dezembro de 2000, foi aprovada a Resolução da Assembléia Geral quanto ao Processo Kimberley.

O terceiro aliado foi o Governo da África do Sul. Ele serviu como país-sede para a primeira reunião, além de colher e disseminar informações.

O quarto e último parceiro, não menos importante, foi a comunidade de acadêmicos e instituições de pesquisa. Sua atividade de investigação e questionamento ajudou a publicar o problema por meio de novos meios e para novas audiências. Especialistas de ONGs são frequentemente convidados para participar de palestras e debates em que problematizam e buscam soluções para impedir a comercialização dos diamantes de conflito.

Durante o Processo Kimberley, notasse uma estrutura de diálogo entre a indústria de diamantes e Estado. No meio deste diálogo se encontra a Sociedade Civil Global, formada por acadêmicos e ONGs. Essa estrutura pode ser comparada a idéia apresentada por Kaldor (Kaldor, 2001), resgatada de Gramsci, onde a Sociedade Civil global é uma esfera entre o Estado e o Mercado, envolvendo as partes já citadas, entre outras, e com o potencial para mudanças.

Em março de 2002, após a 12ª ou 13ª reunião de uma série delas, foram estabelecidas regras para controlar a comercialização de diamantes. A inspeção nacional e o monitoramento regular e independente são essenciais, segundo as ONGs. As novas regulamentações passaram a vigorar desde janeiro de 2003. A medida não inclui a inspeção, mas a prática virá com o passar do tempo em um futuro desenvolvimento do sistema.

Sem embargo, as ONGs (especialmente Global Witness e Partnership Africa Canada) informaram que na falta de um sistema oficial de inspeção, executarão elas mesmas essa inspeção. Além disso, para o funcionamento adequado do sistema de certificação global dos diamantes, faz-se necessário o comprometimento da sociedade dos indivíduos. O controle deve começar com os produtores de diamantes brutos, seguir adiante durante a exportação e re-exportação, mas deve ser parte também da atitude daquele que compra o produto, que deve solicitar o certificado de origem.

Como Smillie bem notou, o papel de pressão contínua das ONGs no Governo e nas indústrias de diamantes foi essencial para que uma atitude fosse tomada de maneira ágil e decisiva quanto aos diamantes de conflitos. Em setembro de 2001, foi apresentada em Londres uma petição em que mais de 200 organizações da sociedade civil demandavam ações mais decisivas para essa questão.

As ONGs também trabalharam com veículos da mídia, desde canais de televisão internacionais, rádios, imprensa e Internet.

Outrossim, sua organização como coalizão deu força ao movimento, superando a informalidade no tratamento do problema. As coalizões eram formadas por grupos ecléticos, de uma ampla gama de interesses, mas atentos à necessidade de compartilhar informações e cooperar em pontos em comum para elucidar o problema dos diamantes de conflito.

 

CARPENTER E OS “DIAMANTES DE SANGUE”

Ao analisarmos o texto “Fighting for Human Rights”, do autor Ian Smillie – e alvo do presente trabalho – podemos traçar interessantes, todavia não tão explícitos, paralelos com o artigo de R. Charli Carpenter, “Setting the Advocacy Agenda: Theorizing Issue Emergence and Nonemergence in Transnational Advocacy Networks”. Em seu texto, Carpenter procura analisar o processo através do qual as redes transnacionais – compostas por ONG’s, OI’s, governos, indivíduos, mídia e acadêmicos – que advogam em defesa de determinados temas ligados a direitos humanos “elegem”, por assim dizer, temas específicos em detrimento de outros.

Para isso, o autor utiliza como estudo de caso o tema das crianças nascidas de estupro em tempos de guerra, comparando a sua não-ascensão como parte do programa de advocacy das redes transnacionais que abordam a temática das crianças em conflitos armados com a relevância conferida a outros temas semelhantes. O autor demonstra que, apesar de certa atenção por parte da mídia e da existência de quatro documentos internacionais pedindo para que as organizações que trabalhem com essa temática concedam um grau maior de atenção ao tema acima descrito, este ainda não se constitui como parte do programa dessas redes. No entanto, o autor argumenta que temas bastante similares, como o das crianças soldado e o da presença de meninas em conflitos armados, já fazem parte da “agenda” de tais redes.

Assim, Carpenter pretende com seu artigo analisar como determinados temas emergem e passam a fazer parte da agenda dessas redes transnacionais, enquanto outros, apesar de identificados e definidos como “problemas” e ganharem o status de temas relevantes a determinado campo – no caso analisado o regime de direitos humanos, mais especificamente, o direito de crianças em conflitos armados – não chegam a figurar nessa mesma agenda.

Ao compararmos com o texto alvo do presente trabalho, observamos uma série de paralelos que surgem a partir de uma análise mais detalhada dos dois artigos. Ao analisarmos o artigo de Carpenter, observamos que o autor estabelece uma diferenciação entre dois processos de suma importância para a “ascensão” de determinado tema: a definição do tema e a adoção do tema. A definição do tema envolve a determinação de que

a given state of affairs is neither natural nor accidental, identifying the responsible party or parties and proposing credible solutions” (Keck and Sikkink 1998:19).

Podemos aqui estabelecer uma comparação com o texto de Ian Smillie, que nos mostra como o tema dos “diamantes de sangue” recebeu atenção mundial pela primeira vez a partir do relatório de 1998, preparado pela ONG britânica Global Witness, intitulado A Rough Trade. Ou seja, a partir do relatório elaborado pela pequena ONG britânica, ao estudar a ligação existente entre o comércio de diamantes e a guerra civil em Angola, é que o tema dos “diamantes de sangue” passou a ser definido como tal, apesar de ainda não fazer parte da agenda das chamadas redes transnacionais. Para entendermos a exclusão do tema – apesar de sua definição – desta agenda, devemos analisar o segundo processo especificado por Carpenter: a adoção do tema. Segundo o autor, a adoção do tema ocorre quando este passa a ser incorporado à agenda de pelo menos um big player da grande rede transnacional que lida com determinado campo dos direitos humanos. A partir daí, as chances do tema figurar como parte relevante da temática maior defendida por essa rede elevam-se significativamente, e a busca pela solução do problema levantado pelo mesmo passa a ser alvo de governos, ONG’s, OI’s, mídia, em outras palavras, a rede em si.

Podemos então observar que, apesar do relatório da Global Witness e de um relatório surgido cerca de um ano depois elaborado pela ONG canadense Partnership Africa Canada (PAC), o tema dos “diamantes de sangue” ainda não configurava-se como parte da agenda da rede transnacional que lidava com o campo dos direitos humanos. Dessa forma, a despeito da clara relação existente entre o comércio de diamantes brutos e as guerras civis em Angola e Serra Leoa, evidenciada pelos dois relatórios, o tema só passou a fazer da agenda da rede supracitada a partir de sua adoção por parte de organizações não-governamentais de maior porte e visibilidade, como Oxfam International, World Vision e Anistia Internacional. Ademais, foi devido à maior visibilidade conferida ao tema a partir de sua adoção por tais organizações que este passou a receber maior atenção de governos, mídia e, principalmente, da indústria diamantífera, e que uma solução passou a ser defendida pelos mesmos, culminando no acordo de Interlaken que finalizou o chamado Processo de Kimberley.

No entanto, não podemos negligenciar o importante papel desempenhado pelas ONG´s britânica e canadense na vital tarefa inicial de definir – utilizando o termo estabelecido por Carpenter – o tema. Foi a partir de seus relatórios iniciais que o tema passou a ganhar maior importância, adquirindo maior atenção na mídia e também na área acadêmica. Outros importantes acontecimentos, como o seqüestro da força de peacekeeping da ONU pelas forças rebeldes de Serra Leoa e a conseqüente atenção conferida pela mídia ao evento e à guerra civil no país em geral, também lançaram luz ao tema dos “diamantes de sangue”, mobilizando a opinião pública internacional. Outro fator que merece destaque para que uma solução para o problema fosse acordada no menor período de tempo possível, era o medo da indústria diamantífera em geral da ocorrência de um boicote consumidor a ser posto em prática por iniciativa das ONG’s. Tal boicote seria fatal para uma indústria que ainda sofria com a recente crise asiática de 1997 e o posterior atentado de 11 de Setembro. Entretanto, é interessante observar que este suposto boicote nunca havia sido mencionado por nenhuma das ONG’s envolvidas no Processo de Kimberley, principalmente devido à percepção por parte das mesmas de que o alvo de seus protestos não era a indústria diamantífera em si, e sim, os diamantes que serviam para fomentar e dar continuidade a conflitos no continente africano.

Todavia, apesar da rica comparação que pôde ser estabelecida entre os textos de Carpenter e Ian Smillie, podemos demonstrar que algumas das explicações criticadas pelo primeiro para ascensão ou não de determinados temas podem ser utilizadas de maneira satisfatória para determinar a incorporação do tema “diamantes de sangue” na agenda da rede transnacional de direitos humanos.

Uma das críticas feita pelo autor está relacionada à suposta necessidade de atenção conferida pela mídia e por determinados empreendedores políticos – celebridades, políticos eminentes – para que determinado tema passe a fazer parte de uma agenda específica. Como anteriormente mencionado, o autor demonstra que apesar de certa atenção na mídia, e por parte de determinados acadêmicos e de documentos de relevância internacional que chamavam à sua atenção, o tema das crianças nascidas de estupros relacionados a conflitos armados – mais precisamente do estupro utilizado como instrumento de guerra – ainda não recebeu o mesmo destaque que temas semelhantes, como o das crianças soldado por exemplo. Ao analisarmos o caso dos “diamantes de sangue”, observamos que tal crítica não pode ser atribuída ao tema, pois foi a partir da atenção conferida pela mídia, por governos e por celebridades (caso do ator Martin Sheen, da série norte-americana West Wing), que este “emergiu” e passou a figurar na agenda da rede transnacional responsável por temas relacionados à defesa e promoção dos direitos humanos.

Outra explicação criticada pelo autor é a de que a ascensão ou não de um tema estaria relacionada com os atributos do mesmo. Portanto, temas que envolvam agressões físicas e crueldade, violações de direitos tidos como igualitários, e nos quais possa ser estabelecida uma clara relação de causalidade, passam a ser incorporados pelas redes de “advocacia” transnacionais. Entretanto, a despeito das críticas formuladas por Carpenter, utilizando sempre como argumento a não incorporação do tema das crianças nascidas de estupro na agenda da rede internacional que trata de crianças em conflitos, esta explicação também pode ser utilizada satisfatoriamente para analisarmos a ascensão do tema “diamantes de sangue”. Nele observa-se uma ligação com graves violações de direitos humanos, como a imagem de crianças que possuíram seus pés e mãos decepados pelos rebeldes em Serra Leoa torna bastante clara. Imagens como essa chocam observadores em todo mundo, e primordialmente aqueles que são o alvo principal das ONG’s que divulgam tais imagens: os potenciais consumidores de diamantes. Além disso, o tema permite o estabelecimento de uma clara relação causal – apesar dos interesses envolvidos -, pois evidencia o papel dos diamantes como recurso para a fomentação de conflitos civis armados no continente africano, e para a conseqüente continuidade de violações de direitos humanos nesses países.

Assim sendo, podemos estabelecer interessantes paralelos entre os dois textos acima descritos e analisados. Observamos que os conceitos de definição e adoção de tema formulados por Carpenter se aplicam de maneira bastante razoável ao tema dos “diamantes de sangue”, tema-alvo do autor Ian Smillie. Entretanto, também tivemos a oportunidade de observar que algumas das explicações para a ascensão ou não de determinados temas criticadas duramente por Carpenter forneciam respostas satisfatórias quando aplicadas a análise do tema “diamantes de sangue”.

 

Bibliografia

Anheier, Helmut. Glasius, Marlies, Kaldor, Mary. Introducing Global Civil Society 2001

Carpenter, Charlie R. Setting the Advocacy Agenda: Theorizing Issue Emergence and Nonemergence in Transnational Advocacy Networks

Cox, Robert. Civil society at the turn of the millennium: prospects for an alternative world order. 1999

 Huntington, Samuel. The clash of civilizations 1993

 Kaplan, Robert. The coming anarchy 1994

 Rotberg, Robert. Failed States in a World of Terror

 Tsing, Anna. Frictions. 2004
 

[1] Smillie afirma que, no ano de 1998, a ONG britânica Global Witness foi pioneira ao trazer para a atenção mundial a questão dos diamantes de conflito. 

[2] A exploração de madeira de lei (para construção) foi uma das primeiras questões do gênero a serem investigadas.

[3] Tsing, 2004. “However it has become increasingly clear that all human cultures are shaped and transformed in long histories of regional-to-global networks of power, trade and meaning.” Tradução livre

[4] Robert Kaplan discute essa questão em “The coming anarchy”, artigo que publicou na Atlantic Monthly em fevereiro de 1994. Além disso, Kaplan sugere que o conceito pode ser ilustrado ao direcionarmos o olhar para a África Ocidental. 

[5] O artigo que traz a contribuição de Huntington foi veiculado pela Foreign Affairs, em 1993, e é intitulado ‘The clash of civilizations’.

[6] Há outras denominações adicionais, tais como: diamante convertido, diamante quente e diamante de guerra.

[7] Como exemplos, podemos destacar como estados fracassados principalmente Angola, além de Moçambique, Líbano, Colômbia, Bolívia, Ucrânia e Serra Leoa.

[8] Conta a lenda que a terra de África é vermelha devido ao sangue derramado nos conflitos em busca de riqueza.

[9] O artigo de Rotberg pode ser encontrado na Foreign Affairs. Foi publicado em 2002 sob o título de ‘Failed States in a World of Terror’.

[10] São considerados antigos movimentos sociais, para esta análise, o trabalhismo, feminismo, entre outros. São considerados novos movimentos sociais, o ambientalismo, humanitarismo, entre outros.

 


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