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Sobre o Documentário “Eu, Madre Alice”

novembro 3, 2008

The French nuns Léonie Duquet and Alice Domon in the ESMA. Both were tortured and were alive a few days later then thrown into the sea.Trata-se da história da francesa Alice Domon, religiosa seqüestrada na Argentina durante a ditadura militar por atuar socialmente em favor dos pobres e semear entre eles a conscientização sobre a realidade do país.

O filme, em algumas cenas, é narrado pela própria Madre Alice. As cartas que ela remete à França para seus familiares demonstram o comprometimento com as questões sociais e políticas, incontornáveis para atingir seu objetivo: contribuir para a construção de um ambiente de dignidade essencial à pessoa humana, ainda que se fizesse necessário o confronto com o Governo autoritário daquela Argentina em crise.

Em um mundo marcado por desigualdades, fome e miséria, o individualismo parece ser o instrumento mais apropriado para sobreviver. Cada um por si; salve-se quem puder e como puder. Mas, essa não é a escolha de todos. Há pessoas como Alice Domon que se sacrificam e servem-se como porta-vozes para os mais afligidos e subjugados.

Não bastasse o esforço de superar sua própria condição humana, esses indivíduos têm que enfrentar ainda o mundo exterior, um universo de antagonismos que parece intransponível. Desafortunadamente, às vezes sua opção custa-lhes a própria vida.

Alice rompeu preconceitos pelo testemunho, era uma freira sim, mas sorria e vivia plenamente, regozijando ter sido escolhida – como ela mesma afirmava – para a consecução da obra de Deus na terra. Além disso, comunicativa e pronta a escutar aos demais, demonstrava virtuosa humanidade.

É impossível acreditar que haja direitos humanos sem a participação do homem. Como argumentou Immanuel Kant, o ser humano é essencial na elaboração, consolidação e manutenção dos direitos fundamentais. Não me restam dúvidas de que a jovem Domon também cria nesse mesmo raciocínio.

A ditadura na Argentina, como as demais latino-americanas e também européias, exibiu características evidentes tal como a repressão policialesca, o estabelecimento de legislação autoritária e a nefasta supressão dos direitos civis. Domon reagiu, de forma mais ou menos intensa/direta, a cada uma dessas inflexibilidades; sem embargo, especialmente durante sua convivência com os agricultores, fomentava neles a prática do questionamento em relação àquela situação. Ou seja, era minando o componente ideológico alimentado pelas autoridades que a religiosa francesa combatia os ditadores. Outrossim, nutria em cada indivíduo com quem cruzava o sentimento de esperança, de superação e de que as suas vidas miseráveis existia alternativa.

As Mães da praça de Maio também são um dos personagens com os quais conviveu Alice Domon. O movimento cívico argentino reúne as mães de pessoas desaparecidas no país, durante o regime militar, no período de 1976 a 1984. As reuniões acontecem na praça de Maio, que dá nome ao movimento, onde se localiza o palácio de governo argentino.

O escuro e o melancólico representam o vazio que o desaparecimento de um ente querido implica na vida de um sujeito. Cada uma das mães da praça de Maio sofre na mesma proporção que os amigos próximos e a família de Alice. O desaparecimento é uma falta súbita que se revive diariamente. Pior que a morte, dizem, pois não se sabe o fim que a pessoa teve, se ainda vive, se é torturada, ou se volta para casa… E saber que foi o próprio ESTADO o perpetrador de ato tão desumano, choca pelo contra-senso da função de protetor que lhe cabe.

Em 2008, comemoramos o sexagenário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento aprovado pela Assembléia Geral da ONU no ano de 1948 que estabelece os direitos fundamentais do homem. Os seus 30 artigos universalizaram princípios de direitos individuais tradicionalmente existentes nas constituições dos países ocidentais de democracia liberal, na Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada na França em 1789.

Mais que isso, simbolizam um avanço em relação ao tema, pois os Estados não podem mais alegar a soberania para violar os direitos humanos. Vale ressaltar ainda o caráter de indivisibilidade desses direitos, e salientar o dever de todos os Estados, independentemente de sistemas políticos, econômicos e culturais adotados, de promover e, sobretudo, proteger cada um dos direitos fundamentais, sem deixar de levar em consideração as particularidades nacionais e regionais de cunho histórico, cultural e religioso.

Muitos mortos, centenas de desaparecidos e muito angústia, pela ausência de Madre Alice e pelos demais. Aos que se foram declaramos nosso agradecimento pelo papel essencial que exerceram em tempos tão árduos, aos parentes e amigos que permaneceram devemos o respeito e a obrigação de juntar-nos a eles para reclamar justiça, única forma de reparação.

Além de tudo o que foi mencionado e sobre o que refletimos, cabe aos homens comprometidos com a verdade, a razoabilidade e a justiça, assegurarem que todo aquele que tem poder encontre ‘limites’, evitando dessa maneira a tendência a abusar dessa condição.

Devemos, em uníssono, proclamar nossa intenção de fazer valer cada um de nossos direitos já conquistados, devemos alimentar o espírito de tolerância e cultivar a boa compreensão dos direitos e liberdades, o que é da mais alta importância para o pleno cumprimento do compromisso firmado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Devemos estimular o senso crítico e a consciência política de nossa geração. Manifestar-nos em prol do que acreditamos e esbravejar para impedir a perversidade.

O povo precisa celebrar a democracia, a liberdade de expressão e de manifestação cultural. Precisa relembrar figuras como Alice Domon, tomá-la como exemplo para cada ação e não-ação. Por fim, relembrar o passado para não cometer ou permitir que se cometam as mesmas falhas.

3ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul.

Centro Cultural Banco do Brasil / Rio de Janeiro

 (Exibido no dia 15.10.2008)

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