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Breviário cívico (Energia), de Henrique Coelho Neto

outubro 9, 2008

   O homem sem iniciativa, que tudo espera do acaso, é como o mendigo, que vive de esmolas.

   A mais bela coragem é a confiança que devemos ter na capacidade do nosso esforço. O que sobe por favor deixa sempre rastro de humilhação.

   O caminho está aberto a todos, e se uns vencem e alcançam o que almejam, não é porque sejam predestinados, senão porque forçaram os obstáculos com arrojo e tenacidade.

   Não há arrimo mais firme do que a vontade. O que se fia em si mesmo é como o que viaja com roteiro e provido de farnel e não perde tempo em informar-se do caminho nem em buscar estalagem para comer.

   Só há uma sina a que o homem não pode fugir é o trabalho — ponte lançada sobre o abismo da miséria, no fundo do qual gemem todas as dores, rugem todos os vícios e escabujam em lama todas as vergonhas.

   É um passo estreito, por vezes oscilante, mas quem se atira por ele com firmeza de ânimo e olhar alevantado atravessa-o, alcançando, no outro lado, a fortuna.

   Quem desanima ou se deixa vencer pelo terror, fica na pobreza ou rola do alto, e, uma vez caído, só com redobrado esforço conseguirá voltar acima, ferindo-se nas arestas dos alcantis, e, às vezes, trazendo manchas de lama, que é o fundo do precipício.

   Aquele que confia em si anda sempre de olhos abertos; o que se entrega a outrem vai como cego; e tanto pode ser guiado para o bem como dirigido para o mal.

   A fortuna é como o fruto que se não dá senão a quem o vai colher no ramo esperá-lo debaixo da árvore até que se desprenda do galho é dispor-se a comê-lo podre.

   O homem que diz “Eu quero!” é como a ave, que se levanta na força das próprias asas, cruzando o espaço como entenda; aquele que diz “Eu espero…” é como a flecha, que só se dirige na direção da pontaria, caindo, inerte, desde que cesse o impulso da corda que a disparou.

   Só os fracos, os impotentes quedam na resignação; os enérgicos insurgem-se, lutam, dão combate à vida e vencem.                       

(In BARRETO, Fausto & LAET, Carlos de. Antologia nacional. 42a ed., Rio de Janeiro, Editora Paulo de Azevedo, 1966.)

 

Sobre o autor:

Visto como um dos maiores escritores brasileiros no começo do século XX, Coelho Neto realizou uma obra incomumente extensa, que chega a mais de cem volumes, entre romances, contos, crônicas, memórias, conferências, teatro, crítica e poesia. Herdeiro do regionalismo romântico, que explorou em muitas histórias sertanejas, sofreu influências do realismo e do naturalismo, embora suas preocupações estilísticas o caracterizem como parnasiano. Sua riqueza vocabular não disfarçava a linguagem preciosa que se deixa arrastar pelos efeitos sonoros, em detrimento da clareza.

Texto original da ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

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2 comentários

  1. Já faz tempo que queria achar este modelo de incentivo ao trabalho,que me arrancou enrgias de meu tempo de estudante pobre.espelhei-me muito nessas palavras de coelh neto.Todos os estudantes do brasil deveriam lê-lo.
    João sales.
    inhumas/goiás.


  2. Ha muito procuro este texto,o qual sempre cito a jovens e velhos amigos pois, considero-o uma bandeira a ser empunhada na vida para o sucesso, bem como para que nao desanimemos diante das viscissitudes da vida. Estarei enviando a todos que fazem parte do meu circulo de amizades.
    Agradeço de coraçao
    Nidia



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