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A Verdade Sobre Religião: O Conceito de Revelação Progressiva

setembro 25, 2008

(por Márcio Ricardo*)

Todos já se perguntaram o porquê de existir tantas religiões no mundo, distintas umas das outras, se Deus é um só. Tantas quantas já se questionaram a esse respeito, foram as pessoas que não encontraram uma resposta satisfatória, e essa é uma das razões que pelas quais fizeram muita gente negligenciar suas necessidades espirituais, inerentes à natureza humana. Mas tudo tem uma explicação compreensível, e nada acontece ao acaso. Reconhecer a figura de Deus implica em aceitar também seus atributos de Onisciência e Onipotência, e nada acontece sem que seja de Sua própria Vontade. Portanto, se existe tantas religiões no mundo, existe uma razão plausível que pode até ser óbvia. E se, até então, as pessoas ainda não atingiram a compreensão desta razão, também existe um porquê para isso.

A origem de tudo que conhecemos e sabemos é duvidosa porque, desde tempos imemoriais, ter propriedade de informações conferia poder, e aqueles que difundiam estas informações, o faziam por interesse próprio, para tirar proveito dessa vantagem ou por interesse e beneficio de um grupo. Esse fato é verossímil em todas as áreas de conhecimento, mas vamos nos ater a Religião em si. Desde os primórdios, quem se dizia representante de Deus, enviado de Deus, ou dizia conhecer a verdade e os mistérios de Deus gozavam de privilégios, como não participar de caças ou no cultivo de alimentos e participavam das decisões da coletividade de forma efetiva. Essa conduta se perpetuou com o passar dos tempos já que podemos perceber os altos postos que o clero religioso sempre ocupou na estratificação social, além da participação política efetiva nos destinos da humanidade. Agora, vamos ser diretos. Se as informações que recebemos foram, de certo modo, manipuladas para atender interesses específicos, tudo que sabemos tradicionalmente, e que formaram nossa cultura, devem ser reavaliadas conscientemente, já que temos a capacidade de discernir melhor e pesar as coisas na balança da sensatez.

Desde que fomos descobertos, o ocidente tratou de nos colonizar culturalmente, e o modelo de cultura era o europeu. No contexto da época, a religião passava por um momento delicado, de cisão, e o protestantismo ganhava cada vez mais adeptos por estarem em consonância com os princípios de uma classe em ascensão, a burguesia. Vendo seus crentes migrarem sua fé para outras religiões, e temendo perder seu poder de influência no mundo conhecido, a Igreja Católica, através do Concílio de Trento, determinou a catequização de novos adeptos, e mandaram os jesuítas para as terras recém descobertas. Tal catequização tinha objetivos claros e interessados, e não tinha a ver com purificação espiritual, mas sim com motivações políticas. Essa foi a primeira experiência de sistema de ensino e aprendizagem que tivemos, e os modelos e estruturas educacionais que foram estabelecidos desde então sempre foram movidos por interesses políticos, mas vamos abordar essa questão em outra oportunidade. O que é importante ressaltar é que, desde a colonização, fomos induzidos a aceitar uma única vertente da verdade religiosa, sem termos referências das outras religiões existentes.

Podemos reconhecer grandes matrizes religiosas, e elas são quase equivalentes no número de crentes: entre um bilhão, um bilhão e duzentas pessoas. Ou seja, existem tantos cristãos quanto existem muçulmanos, judeus, hinduístas, budistas… e as questões que surgem são: porque existem tantas matrizes (considerem matriz como a essência religiosa. Exemplo: cristianismo é a matriz religiosa do catolicismo, ortodoxismo cristão, protestantismo… e estas se subdividem aos milhares) religiosas? Se você é cristão, o que faz você acreditar na grandiosidade de sua crença em detrimento das demais? Se você é conhecedor da verdade, como pode haver tanta gente (4/5 da população mundial) enganada quanto às suas crenças? Porque se observa tanta intolerância em relação às demais crenças religiosas, se as pessoas desconhecem as demais religiões? Eis o conceito que deve ser concebido às pessoas: Deus é um só, e a religião é uma só, e todas elas fazem parte de um mesmo processo de educação espiritual da humanidade. Este é o princípio da revelação progressiva de Deus, e existem provas cabais da veracidade das evidências deste processo.

Este processo acontece devido a uma aliança feita entre Deus e a humanidade, registrada nas escrituras sagradas, de que seria enviado um educador, um profeta, de tempos em tempos, que revelaria verdades e leis espirituais a toda humanidade. Esse fato pode ser compreendido com a parábola da vinha, através da Bíblia, que diz assim, em linhas gerais: Deus tinha uma vinha, e conferiu a responsabilidade dessa vinha a algumas pessoas, mas de tempos em tempos, mandaria seus representes (seus profetas) ver como essas pessoas estavam cuidando dessa vinha (entenda vinha por humanidade)… e assim procedeu: mandou um representante, mas essas pessoas (o clero religioso) não acreditaram nela e a mataram. Tempos depois, Deus mandou outro, e descrentes, também o mataram. E Deus prosseguiu mandando outro, e mais outro, mais outro, mas todos foram mortos. Insatisfeito pela audácia dessas pessoas, Deus mandou seu próprio filho para que reclamasse os maus tratos destas para com a vinha e seus representantes, mas eles também mataram seu filho! Diante do ocorrido, Deus prometeu vir Ele, pessoalmente, retiraria a vinha dessas pessoas e a entregaria àqueles que a merecessem.

Outro indício, também observável na Bíblia, está na história de Abraão. Como prova de submissão e obediência, Deus ordenou que Abraão sacrificasse seu filho. Sem questionar, Abraão amarrou e vendou os seus olhos, mas antes de sacrificá-lo, Deus interveio dizendo ter tido provas suficientes de sua obediência incondicional, pediu que sacrificasse um animal, e prometeu abençoar sua linhagem como recompensa. Como sabemos, Abraão teve três casamentos: de seu primeiro matrimônio, descenderam Moisés e Jesus, arautos do Judaísmo e do Cristianismo, respectivamente; de seu segundo matrimônio, descenderam Maomé, profeta do Islã, e `Ali Muhammad, que recebeu o título de O Báb (a porta, em árabe), e iniciou o Babísmo, religião precursora da Fé Bahá´í; de seu terceiro matrimônio, descendeu Bahá´u´lláh (título que significa Glória de Deus, em árabe), que deu início à uma nova religião, em meados do século XIX. O que a história de Abraão nos evidencia é que sua descendência, abençoada, originou as grandes matrizes religiosas que conhecemos, e por algum motivo, fomos induzidos a não reconhecê-los como os expoentes da religião de Deus. Outra evidencia clara, a meu ver, é o fato de existir um grande plano divino, já que Deus havia prometido o surgimento desses seres abençoados, e como diz a parábola da vinha, viriam de tempos em tempos, para educar a humanidade e renovar sua mensagem, de acordo com o desenvolvimento e capacidade de compreensão das pessoas.

Para visualizar a sensatez desse plano, imagine o sistema educacional que conhecemos, apenas como exemplo: quando estamos aptos a receber instrução escolar, devido o desenvolvimento de nossa capacidade cognitiva, ingressamos na escola. Como nossa capacidade é ainda limitada, aquilo que temos capacidade de aprender também é limitado e, portanto, na primeira série, aprendemos o be-a-bá, o básico para começarmos nossa alfabetização, além de algumas noções de matemática, como somas e subtrações simples, etc. O que o professor nos ensina é tudo aquilo que somos capazes de aprender, a princípio, e não significa que o conhecimento do professor se limita àquilo. Com o nosso desenvolvimento cognitivo durante a primeira série nos tornamos aptos a aprender mais e adquirir novos conhecimentos dentro de um plano pedagógico, e assim, passamos para a segunda série, com outro professor, onde vamos aprender coisas mais complexas de alfabetização e matemática, como construir sentenças de palavras maiores ou contas mais complexas. E assim, sucessivamente, aprendemos tudo aquilo que nos seria imprescindível para a vida, de acordo com nosso próprio desenvolvimento e nossa capacidade de compreensão. O que a parábola da vinha demonstra é que Deus ordenou esse plano de educação da humanidade, enviando seus professores divinos para nos educar espiritualmente, cada qual a seu tempo, de acordo com nossa capacidade de compreensão. Tanto é verdade, que Jesus disse: tenho muito a vos dizer, mas não podeis suportar agora. Um dia virá o Espírito da Verdade e vos guiará toda a verdade… Se estivéssemos prontos para aprender tudo, ele teria ensinado, mas, ao contrário, disse que outro viria para isso (o Espírito da Verdade; se fosse Ele próprio, teria dito Eu virei ou voltarei). Este plano nada mais é que a evidência clara que a religião, portanto, é uma só, e que todos aqueles seres santos que iniciaram uma religião, com ensinamentos específicos e livros sagrados distintos (veja gráfico abaixo), o fizeram dentro de um mesmo plano de Deus.

Esta verdade é suficiente para derrubar alguns mitos. O primeiro deles é que Deus não abandonou a humanidade a própria sorte depois da morte de Jesus, como muitos acreditam; assim como os judeus deveriam ter reconhecido a divindade de Jesus, os cristãos deveriam ter reconhecido a divindade em Maomé, e ainda, tanto judeus e cristãos, quanto muçulmanos, deveriam reconhecer O Báb e Bahá´u´lláh como os últimos expoentes da revelação de Deus. Outro mito está no fato de Jesus ser o único caminho, verdade e vida (espiritual): quando Cristo disse isso, não fazia referência ao cristianismo (quem nem existia, de fato) como a única religião que conduziria a Deus. A verdade é que se analisarmos o contexto em que isso foi dito, poderemos compreender melhor: sacerdotes judeus questionavam a origem divina de Jesus por ter nascido em Jerusalém, filho de carpinteiro, e não ter descido das nuvens, com uma espada, nem havia sentado no trono de Davi, como diziam as profecias sobre a vinda do Messias. Portanto, eram os sacerdotes que se julgavam representantes de Deus por conhecerem a verdade das escrituras sagradas. O que Cristo quis dizer, em outras palavras, é que ele era o caminho, naquela época, naquele contexto, e não os sacerdotes. É claro que reconhecer Cristo como Messias implicaria em ter que abrir mão de todos os privilégios que tais sacerdotes detinham tradicionalmente, e mesmo que o reconhecessem, não o fariam por interesse próprio, e ainda, manipulariam a opinião pública a desacreditar numa nova manifestação, fato recorrente em todas as religiões. Todos aqueles que se disseram Manifestantes de Deus foram perseguidos, sofreram tribulações, pesares, castigos e torturas físicas, e basta recorrer à história para se comprovar.

Reconhecer a unicidade da Revelação de Deus exige certo desprendimento de tudo aquilo que conhecemos por tradição, e analisar a história com discernimento e atenção para notar o entrelaçamento que existe entre as religiões. Por exemplo, os cristãos não reconhecem Maomé como Manifestante de Deus, mas os muçulmanos reconhecem a posição de Jesus e, não só o reconhece, como o reverencia. No Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, há uma das mais belas referências sobre a grandiosidade de Jesus, relatada por Maomé. Antes de o mundo árabe ter aceito Maomé como um emissário de Deus, a religião predominante no oriente médio era o zoroastrismo, religião fundada por Zoroastro. Pode te soar estranha essa informação, mas o zoroastrismo está mais presente em nossa formação do que você sequer possa imaginar: é na data mais importante para o cristianismo que reconhecemos as figuras dos Três Reis Magos, que eram sacerdotes zoroastrianos, e só encontraram Cristo por conta de profecias sobre sua vinda, deixadas por Zoroastro. Além disso, toda a cultura ocidental está alicerçada sobre a filosofia socratiana, e Sócrates desenvolveu sua filosofia quando esteve em contato com os sacerdotes zoroastrianos.

E para quem é apegado aos milagres do cristianismo, uma informação capaz de abalar as estruturas: Jesus não foi o único que nasceu de mãe virgem! Tanto Jesus, quanto Krishna (que originou hinduísmo) e Zoroastro nasceram de mães virgens! Aí, você pode pensar: nascer de mãe virgem é uma sacada tão interessante, que podem ter plagiado a história!! Verdade… faz sentido! Acontece que Krishna surgiu há 3500 anos, e Zoroastro, 2600 anos, aproximadamente e, portanto, antes de Cristo. Quem teria plagiado quem? Ao invés de se pensar em plágio, que tal pensar na origem divina de todos Eles, através de um método recorrente usado por Deus?

São fatos como estes que fazem sentido acreditar que a religião de Deus é uma só, e que todos os manifestantes que surgiram vieram por propósitos específicos: cada qual, na sua época, detinha uma verdade necessária para o progresso humano, e faziam parte de um plano maior de Deus, de educação da humanidade, com ensinamentos capazes de suprir as necessidades de cada época. Talvez, no período de Moisés, que tinha como ensinamento primaz a obediência, a lei contida nos dez mandamentos de Não matarás fosse suficiente para estabelecer a ordem social. Mas o mundo muda, a sociedade e as necessidades também mudam. E se por acaso entra um bandido em sua casa e violenta uma mulher ou criança? Se você tivesse a chance de se proteger, mataria esse bandido? Se uma pessoa coloca uma arma em sua cabeça enquanto estupra alguém da sua família, e você tomasse essa arma, mataria essas pessoas? Não estou dizendo que devemos ter direito de fazer justiça com as próprias mãos, mas sim, evidenciar que uma lei social do tipo Não matarás já não seria suficiente em si e precisaria de complemento para atender as necessidades do mundo contemporâneo. Antes, simplesmente obedecer já conferia segurança que a lei pretendia, assim como um pai determina o que uma criança deve ou não fazer, sem questionar, já que ainda não é capaz de compreender sua razão. Mas quando este atinge a adolescência, é capaz de compreender o que é certo e o que é errado, e a obediência deve ser conseqüência da compreensão das razões do pai. Como um indivíduo, a humanidade também cresce, se desenvolve, amadurece e é isso que Deus faz quando envia de tempos em tempos seus manifestantes: ampliar a compreensão dos preceitos religiosos, renovar leis sociais e espirituais num mundo em constante transformação, e se um profeta muda de cara ou inicia uma nova religião, é justamente para testar a fé das pessoas, como aconteceu com os judeus quando Deus enviou Cristo, como previa a parábola da vinha; e como aconteceu com os cristãos na vinda de Maomé, e como aconteceu com todos eles quando enviou Bahá´u´lláh. Você pode até não atirar pedras, não crucificar, como fizeram a Jesus, mas não reconhecer um manifestante te coloca no mesmo patamar daqueles que negaram a divindade de Cristo, de descrença e afastamento de Deus. É esse nosso Juízo Final! E se por acaso você estagnou nos ensinamentos espirituais difundidos há 2000 anos atrás, está tão defasado quanto se parasse de estudar no primário, ou seja, deixou de conhecer muitas verdades espirituais, mas é perfeitamente capaz de compreender e discernir essas verdades, pois outros professores, divinamente ordenados, deixaram ensinamentos tão belos, compreensíveis, quanto importantes e fundamentais para nossa existência.

 * Márcio Ricardo, Formado em Sociologia, Ciências Sociais e Políticas, pela UNESP, pesquisador em Política Internacional e Relações Internacionais. Membro da Comunidade Bahá’í.

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4 comentários

  1. Muito bom mesmo, essa leitura nos faz um bem tremendo, falando sério!

    Obrigado e Parabens


  2. Uma lição importantíssima. Seguir especificamente a religião que herdamos dos nossos pais, sem pesquisar um mundo de informações que existe hoje é praticamente um grande comodismo ou mesmo preguiça religiosa.
    Muito Bom!


  3. Thanks for the marvelous posting! I really enjoyed reading
    it, you could be a great author.I will make sure to bookmark your blog
    and definitely will come back later in life. I want to encourage continue your great job, have a nice weekend!


  4. Thank you very much for your kind comment. However, you will notice that I am not the author of this post. His name is Márcio Ricardo, researcher from the UNESP (São Paulo State University) and member of the Bahá’í community.



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